Número 251: Do jovem, da fuga e da fome

dezembro 28th, 2011 § Deixe um comentário

Um dia de merda. Uns dias de merda. Ele gosta de ir no cinema sozinho quando tá nessas crises existenciais pra ver se esquece do mundo por algumas horas. Na saída do filme, numa rua movimentada no centro da metrópole, ele é parado por um jovem de uns 17 anos que diz:

- Oi, eu não vou te assaltar não e nem quero pedir muito dinheiro, só queria uma coisa. Será que você poderia me ajudar?

- Se eu puder – ele respondeu.

- É que eu briguei com minha mãe, fugi do meu padrasto e tô andando desde cedo no centro da cidade e tô morrendo de fome. Já tentei comida no abrigo da prefeitura, mas eles não puderam me dar. Será que você não se importaria de pagar uma refeição pra mim ali no bar de cima?

- Uai, posso. Vamos lá!

Os dois andaram por 10 minutos até o restaurante. Chegando lá a comida já tinha acabado.

- Tem um outro restaurante ali em baixo, a gente podia ir lá. Não vai ficar longe pra você não?

- Não, vamos lá.

No caminho até o outro restaurante (que ficava a 20 minutos do primeiro) ele pergunta:

- Você é doido de sair de casa sem nada? Por que isso?

- Não sou doido, mas eu saí pra evitar fazer uma besteira. Minha mãe tá doente e meu padrasto bebe muito e hoje chegou em casa mais uma vez alterado e não aguentei.

- Mas você saiu sem documento, sem nada?

- Sim.

- Doido.

- Se eu não for incomodar eu podia pedir mais um coisa?

- Se eu puder fazer.

- É que eu tô indo pra Betim, pra casa do meu pai. Será que você não poderia me dar um dinheiro depois que eu comer pra eu pegar o metrô e o ônibus pra ir até lá?

- Dou sim, mas vamos comer primeiro.

Um tempo se passa.

- Quantas horas?

- 21:30

- Nossa, tá tarde. Acho que não vou comer, senão vou chegar em Betim muito tarde.

- Claro que não. A gente passa no restaurante, você come e depois te dou o dinheiro pra você pegar o metrô. Não vou deixar você ir com fome até Betim, vai que você passa mal no meio do caminho, daí eu que não vou ficar tranquilo.

- Tá bom então.

E assim eles chegaram no restaurante e o rapaz não quis comida, só um salgado com um refresco. Pegou o salgado, o refresco e comeu com um tremendo apetite.

Ele então deu o dinheiro pro adolescente, apertou-lhe a mão, desejou que tudo ficasse bem e se dirigiu pro seu ponto com o coração partido e pensando no que seria daquele jovem. Desde então, só consegue torcer pra que ele tenha conseguido chegar bem até a outra cidade e que lá, se acalme e que tudo se resolva.

Ele rezou. E agradeceu aos céus pela vida que tem.

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