Número 204: She’s reborn like Sarah Vaughan…
julho 24th, 2011 § 9 Comentários
Querida Amy,
Lembro-me bem, exatamente no dia em que descobri você. Em que descobri era a moça que cantava aquele hit grudativo que dizia ‘No, no, no’ e que eu já havia ouvido algumas vezes na rádio. Nessa época, lá em 2007 eu só ouvia a OiFM e os caras amavam essa música. Só que a Oi tem dessas coisas de não falar o nome do que tá tocando, sabe? Ou tu adivinha ou gasta alguns centavos de crédito mandando mensagem pra lá pra descobrir.
Aí eu morava numa casa que permitia que eu tivesse rádio no banheiro. E você tocou. E eu não pensei duas vezes e saí correndo, molhado, escorregando pela casa só pra procurar o celular e mandar o bendito SMS pra descobrir quem era você. E veio lá ‘Você está ouvindo REHAB – AMY WINEHOUSE’. Primeiro pensamento? “Assim que eu for pra casa do meu pai vou baixar essa música”
E assim se fez. Cheguei na casa do meu pai e corri pro Youtube pra te ver. E olha lá, vi Rehab e logo depois Back to Black. Daí o amor que eu já sentia pelo ‘no, no, no’ virou vício. Fiz o download de praticamente todo o seu CD (com uma dificuldade tremenda, porque nessa época a internet era discada. Sofri.) Você perdoa essa parte do CD né?
Botei tudo no meu celular e só ouvia você. E o mundo passou a te conhecer melhor. E você começou a ser premiada. E os tablóides passaram a te amar. E eu também, a cada dia mais e mais.
Nessa época foi que entrei na sua comunidade no orkut e olha, eles estavam em pé de guerra. Foi o primeiro barraco de orkut que eu presenciava e ‘A casa caiu’. O dono saiu, passou pras mãos de outro sujeito que eu achava um saco no começo e pra um bocado de moderadores. O trem tinha mais regras que a Constituição, Amy.
Aí tinha um tópico lá que se chamava / chama ‘Chat Blow and Puff VI’ em que era tudo permitido. Eu não gosto muito dessas coisas engessadas, cheio de regras, você sabe. Então eu fui lá e comecei a comentar só as bobagens que me são peculiares. E mais gente ia comentando e eu ficava horas naquilo.
Aos poucos as amizades que eu fui fazendo ali, migraram pra MSN e pra vida.
Com meu primeiro salário eu comprei seus CDs, porque né? Muito feio eu ficar com os downloads de uma artista que eu gostava tanto. E você me fez fazer tudo aquilo que eu julgava babaca em algumas pessoas, em alguns fãs: sugar tudo de um artista, ser chato, pedante, só falar daquilo, querer mais que tudo ver, tocar, ouvir a sua música.
E ganhei o DVD do meu irmão, depois de uma viagem que ele fez pra Salvador. Ele disse ‘Toma, o DVD da viciada’.
E aí começou a fase negra da tua vida. Não deve ter sido fácil né? Drogas, álcool, brigas com o ex-marido, que desculpa Amy, mas ele era um idiota. Odeio esse cara. E você lá, botando tudo pra fora, todas as suas frustrações, fraquezas, tristezas pra fora. Sem vergonha, sem pudores. Aliás, você já fazia isso nas suas músicas né. Em todas.
Acompanhei tudo, de longe mas de perto. Seus fracassos em 2008, suas férias no Caribe, suas voltas a Londres, seus choros pelo seu ex-marido, suas noitadas, suas recaídas, suas Rehabs. E na esperança que você iria voltar a ser a Amy de 2007, dos grandes shows, daquela voz que nunca vi igual, das ‘desconstruções’ da métrica das suas músicas que você fazia ao vivo e que me faziam gostar ainda mais de você.
Chegou 2010 e você ficou mais quietinha, mais comportada né? Galera do The Sun deve ter ficado meio revoltadinha e até inventado algumas coisinhas a seu respeito, pra ver se vendiam jornal. No fim de 2010, a surpresa maior. Rumores fortíssimos de shows seus por aqui. Na época pra ser sincero, eu nem queria que você realmente viesse sabe? Me senti meio que como cobaia.
Mas confirmaram e eu fiquei em êxtase. Tirei dinheiro de onde não tinha e enchi o saco da minha Timeline no Twitter até o dia em que o ingresso pro seu show em São Paulo, último da turnê chegou. E eu ia de primeira fila. Ansiedade? Tava no teto, Amy.
Quando você chegou no Brasil em janeiro desse ano eu fiquei completamente louco. Tava chegando a hora, era verdade, eu ia te ver de perto. Mas eu não ia conseguir ir em um show só seu, porque você sabe, seus shows são únicos. E aí conversando com o Roberto, fizemos a loucura de pegarmos um ônibus e partir pro Rio só pra te ver. E bota loucura nisso, Amy! Mas aquele 10 de janeiro foi o dia mais feliz da minha vida. Você não tava como em 2007, você sabe disso né? Mas ainda assim tava bem, a voz tava boa novamente, com algumas falhinhas mas voltando ao normal.
Cinco dias depois o show de SP, o último. Eu, cinco e meia da manhã na fila, só pra te ver. Só queria te ver. Você só entrou no palco por volta das 23 horas e eu nunca gritei tanto. Depois desse dia eu não consigo mais gritar como antes tá? Culpa sua. O segundo dia mais feliz da minha vida. O seu sorriso na minha direção em Valerie vai ficar pra sempre na minha memória.
Aí esse 2011 se resumiu numa expectativa pela sua volta e pelo novo CD que deveria estar próximo. Turnê europeia marcada e o que você faz? Entra bêbada no palco, não consegue cantar e cancela a sua volta aos palcos por tempo indeterminado. E eu fiquei revoltado contigo viu? Xinguei muito no Twitter. Porra, precisava cagar no maiô assim? Precisava?
E duas semanas depois tu aparece bem caminhando por Londres e depois no show da Dionne. Te xinguei, não vou negar.
E ontem a bomba maior. Você como sempre pegando os fãs de surpresa né? Meu mundo caiu no momento em que recebi o SMS da Samira no meu celular falando do acontecido. E parecia que eu era algum parente seu, porque devo ter recebido mais ligações que seu pai, se bobear. Não consegui pensar em mais nada, não conseguia nem falar, um soco gigantesco no estômago. Eu tinha muito medo que isso ocorresse, Amy porque além da sua vida desregrada, tem a maldição dos 27 né? E eu sou supersticioso e tava doido pro dia 14 de setembro chegar e você fazer 28 anos logo e espantar essa Zica.
Não deu. Você foi encontrar Ava, você foi voar com os pássaros, cantar com a Janis (e que dueto vai ser esse heim?). Não sei o que fez que você partisse e nem sei se quero saber, mas tá doendo agora que a ficha tá caindo. Parece que arrancaram um pedaço de mim, sabe? Só senti uma vez dor parecida, foi quando perdi quem eu mais amei nessa vida. Tá vendo o que você conseguiu ser? Fã que ama mais que tudo o artista.
Tu vai fazer uma falta desgraçada, guria. Mas a vida segue e eu vou ficar aqui, sem nunca me esquecer de você, sem nunca deixar de te ouvir. E olha, você está intimada a me encontrar e me receber quando eu for voar com os pássaros também tá?
“Amy was the morning, now she’s gone
She’s reborn like Sarah Vaughan”
Já vou terminar essa carta por aqui, só queria nessa última parte te agradecer. Agradecer por me mostrar que não é vergonha pra ninguém mostrar suas fraquezas ao mundo, que não é vergonha sofrer por amor e nem por ninguém. E queria agradecer especialmente por ter me feito conhecer as melhores pessoas do mundo. Através de você fiz amigos que vão ficar pra vida toda. Eve, Talitinha, Roberto, Maykon, Walter, Bruno’s, Murilo, Chele, Cínthia, Matheus, Giovani e mais outros que sem querer posso ter esquecido aqui, mas que não são menos especiais. Valeu!
Vai lá cantar pros anjos, porque sua voz já não era pra esse mundo não. Fica aqui a saudade e o agradecimento por ter me feito feliz, por ter me proporcionado as maiores alegrias do mundo.
Com carinho,
Hugo Avelar
Que coisa mais linda, hugo! ;’(
Minhas lágrimas e soluços mal deixaram-me ler e comentar por aqui, lindo Hugo! sentiremos essa dor eternamente, mas a encontraremos um dia e eu vou beijar e brigar tanto com ela…ela me deu as maiores alegrias e a dor mais profunda.
TE AMO MINHA FLOR, PRA SEMPRE!!!
Beijos,
Paula Blanco
LINDO!!! To emocionada…
Huuugueti doo céu…
choreeei muuuito aquii …
omg!! SEM PALAVRAS… <33
vc é mt especial msm, te adoro e amei a cartinha…bjim ~.^
sim, maravilhoso esse dueto janis e amy, minhas cantoras preferidas…
E muito triste, mas pelo menos vai ser lembrada agora pelo talento, nao pela vida desregrada… Realmente… Renascida como Sarah Vaughan. , (que partilhava o amor pelo jazz e o dedo podre para escolher homens)
[...] a morte da Amy comecei uma busca incessante por um novo talento pra admirar, uma nova estrela pra tomar conta do [...]
[...] julho veio o que ninguém esperava e ninguém queria. A gente sabia das dificuldades que ela enfrentava, do quanto difícil tava sendo, mas a gente [...]
[...] O ano em que vi a Amy de pertinho e tive o dia mais feliz da minha vida. O ano em que ela me deixou. [...]